
Por que razão está a ler isto?
Daniel Kolak e Raymond Martin
Porque quer ler. Mesmo que alguém lhe tenha dito para o fazer, não faz diferença: se não quisesse fazer o que lhe disseram, não estaria a ler isto. Mas está a ler. Portanto, em qualquer dos casos, quer queira simplesmente ler quer lhe tenham dito para ler e agora está a ler porque quer fazer o que lhe disseram, está a fazer o que quer. Mas ao ler estará a agir em liberdade? Isto é, será que depende de si o facto de estar a ler?
A resposta pode parecer óbvia. Está a fazer aquilo que quer. Logo, está a fazê-lo em liberdade. Mas será que aquilo que quer depende de si? Quando está a fazer aquilo que quer, está o leitor em controlo — controla os seus quereres — ou será que são os seus quereres que o controlam?
Suponha que tinha ordens para ler isto. Encontra-se a obedecê-las. Depois recebe ordens para questionar as ordens. E, portanto, questiona-as. Depois recebe ordens para deixar de as questionar. Portanto, deixa de o fazer. Neste caso, iria rapidamente perceber que não tem liberdade, que estaria sob o controlo das ordens. Uma ordem é uma instrução, normalmente verbal. Mas suponha que as ordens não eram dadas sob a forma de instruções mas antes sob a forma de anseios directos que o faziam agir de determinada forma.
Estar sob o controlo de anseios seria mais subtil do que ser controlado por instruções verbais, pois poderia facilmente pensar que os anseios estavam sob o seu próprio controlo. Poderia fingir que esses anseios dependiam de si. Poderia até chamar-lhes quereres. Quando sentia o impulso para fazer X, poderia dizer para si próprio, "Eu quero fazer X". Poderia assim inteligentemente esconder de si próprio o facto de que seja lá o que for que o impulsiona a agir (seja um programa interno ao qual não tem acesso directo ou um programador externo) se encontra escondido porque o leitor tem quereres em vez de ordens. Para o levar a ler isto, por outras palavras, o programa (ou o programador) enviar-lhe-ia o querer — uma instrução não verbal — como uma forma de o levar a agir sem que se apercebesse disso. Neste caso, será que o que o leitor quer depende de si? Seria livre? Parece que não. Teria no máximo apenas a ilusão da liberdade. Fazer o que quer iria mascarar o facto de os seus quereres estarem a controlá-lo, e não o contrário.
Não estará o leitor exactamente nesta situação? O leitor não faz os seus quereres, apenas os tem. Chegam-lhe à sua consciência despoletando vários comportamentos. Por exemplo, se agora estiver com fome poderá querer comer. Com certeza que não escolheu em liberdade querer comer. As pessoas não escolhem querer comer, apenas descobrem ao prestar atenção às suas experiências de fome, que querem comer. Mas se não escolhemos os nossos quereres e se os nossos quereres determinam as nossas escolhas e as nossas escolhas determinam as nossas acções, então, em última análise, as nossas acções não dependem de nós, e logo, parece que não as executamos em liberdade. Portanto, mesmo que ao ler isto neste momento esteja a fazer aquilo que quer, dado que os seus quereres não dependem de si, ler isto também não depende de si e, assim, parece que não está a ler isto em liberdade.
Suponha-se que, contudo, quer e não quer fazer algo — por exemplo, que quer comer chocolate e ao mesmo tempo também não quer comer chocolate, isto é, que quer resistir ao seu desejo de comer chocolate. O que irá fazer? Bom, qual é o querer mais forte? Irá agir — tem de agir — de acordo com o seu querer mais forte. Assim, o seu comportamento — seja lá o que for que acabar por fazer — será apenas um mero produto de um querer suplantar outro. Por exemplo, suponha-se que quer comer chocolate porque sabe muito bem e que simultaneamente não quer comê-lo — ou que nem quer desejá-lo — porque pensa que comê-lo é mau para si. Suponha-se que agora não consegue deixar de querer comer chocolate. Querer comer chocolate agora não é algo que escolhe fazer, mas algo que simplesmente descobre acerca de si próprio. Pode, talvez, condicionar-se a si próprio — pode talvez, por exemplo, inscrevendo-se num programa de terapia para fanáticos de chocolate — de modo que no futuro deixe de querer chocolate. Suponha que faz isso mesmo e que numa certa altura perde o seu desejo de comer chocolate. Neste caso, será que aquilo que quer no futuro depende de si?
Depende. Como surgiu o seu desejo actual de deixar de comer chocolate — e assim o seu desejo de se autocondicionar para deixar de o desejar? Talvez tenha lido um relatório que diz que o chocolate faz mal e que ler isso tenha despoletado o seu desejo de deixar de desejar chocolate. Mas como surgiu esse segundo querer — o querer deixar de querer chocolate? Terá sido algo que escolheu ou algo que simplesmente descobriu que lhe tinha acontecido ao ler o tal relatório? Certamente que é o segundo caso. Não depende de si o que sentiu acerca de tal relatório. O leitor não escolhe o que sente. Apenas dá consigo a sentir o que quer que seja que sente. Assim, mesmo que se autocondicione para sentir coisas diferentes no futuro ou para alterar as circunstâncias de modo a que um certo desejo que agora possua mas que não quer possuir não surja no futuro, o impulso que agora sente para se condicionar ou alterar as circunstâncias é algo que descobre acerca de si próprio; não é algo que o leitor escolhe.
Em última análise, então, quereres e não quereres são ambas coisas que lhe acontecem e não coisas que escolhe. Não depende de nós aquilo que queremos e não queremos. Assim, mesmo aquilo a que chamamos escolhas não impostas — isto é, as escolhas que não são forçadas a partir do exterior — são impostas a partir do interior. Estas tais escolhas não impostas dependem tanto pouco de nós, em última análise, como aquelas que são feitas por imposição externa. A única diferença é enquanto nos apercebemos facilmente da imposição externa como uma imposição, no caso da imposição interna isso já não é óbvio. Deste modo, a nossa liberdade irá parecer uma ilusão. Como poderá até o simples facto de estar neste momento a ler isto ser um acto livre, independente do que o levou a ler? Como pode ser livre o que quer que seja que qualquer um de nós faz?
Daniel Kolak e Raymond Martin Tradução de Célia Teixeira Excerto retirado do livro Sabedoria Sem Respostas (Lisboa: Temas e Debates, 2004)

